magazine RISCO ZERO n2 - page 15

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continua no nossomundo altamente tecnológico e socialmente
desenvolvido. Como é possível que num mundo em mudança,
aparentemente sábio, cheio de informação, rico em legislação e
dotado de meios de controlo, aparentemente muito eficazes,
que haja seres humanos a escravizarem outros, mesmo no nos-
so país ou mais concretamente no país vizinho? Imagino a an-
gústia, a tristeza, a humilhação, o sofrimento, a carência de cui-
dados higiénicos, alimentares, de saúde e a falta do afeto e
amor da família de tantos trabalhadores que são coagidos e en-
ganados a trabalharem em explorações agrícolas no país vizi-
nho. Ponho-me a imaginar a prepotência, as ameaças, os casti-
gos dos seus donos, tão criminosos como os antigos negreiros
quando se dedicavam à caça e ao transporte de homens livres
entretanto escravizados. Arrepio-me e enojo-me, porque é uma
amostra de uma prática de um mundo dito em mudança, em
que os beneficiários sejam eles os novos esclavagistas, sejam os
proprietários das explorações – que não devem ignorar o pro-
blema -, contam coma falta de fiscalização efetiva e de interven-
ção dos responsáveis ao mais alto nível. Quando são apanha-
dos são castigados? São. E quando não são? As pessoas que
têmde trabalhar nestas circunstâncias, talvez omais indigno de
todos os trabalhos que conheço deverão sofrer muito. Neste
caso o próprio conceito de stresse talvez não seja o mais apro-
priado porque se atinge omáximo da ignomínia. É a antítese do
significado do trabalho, de honra, de dignidade e de superiori-
dade que lhes está associada. Escolhi este exemplo, com o qual
começo a minha intervenção, para mostrar que é possível nos
dias de hoje verificar algo de impensável. Estamos nummundo
em mudança? Estamos, e muda a uma velocidade nunca vista
e, mesmo assim, premeia e possibilita formas de atuação con-
denáveis que pensava já não existirem. O mundo pode estar a
mudar, mas, infelizmente, não muda quanto ao trabalho, nem
quanto aos fatores geradores do stresse. É aqui que está o busí-
lis da questão. O stresse laboral existiu desde sempre e, não
obstante todo o progresso, continua a manifestar-se commuita
frequência - até tem aumentado -, e com gravidade crescente,
traduzindo, na minha opinião, a incapacidade humana de criar
condições de trabalho que satisfaçam as nossas verdadeiras ne-
cessidades. Ao longo dos últimos tempos, tenho examinado
jovens trabalhadores contratados a prazo. Aumenta de ano para
ano o número e aumenta a ansiedade dos mesmos. Recordo de
muitas histórias, cada uma das quais seria matéria mais do que
suficiente para avaliar o mundo de trabalho atual, obrigando-
nos a refletir sobre o mesmo. Por exemplo, uma trabalhadora
que só tem, episodicamente, curtos contratos, confidenciou-me
que o que mais a preocupava era não poder ter filhos naquelas
condições. Gostava imenso de os ter e já se aproximava dos 35
anos. Se continuar nestas andanças já estou a ver que nunca
mais sou mãe. Eu sei, disse-me, que hoje as mulheres podem e
cada vez mais estão a optar por serem mães tardiamente, por
motivos de ordem académica e de realização pessoal. Uma op-
ção que respeito comentou, mas eu não tenho qualquer carreira
académica e, profissionalmente, só queria ter estabilidade pro-
fissional para satisfazer o meu instinto maternal. Uma pequena
história? Não uma grande história que se multiplica por muitas
jovens. Aqui está uma causa importante de stresse e, ao mesmo
tempo, um fator pernicioso para a nossa sociedade. Outra histó-
ria. Uma jovem funcionária dos Correios que acabou, à custa de
muito trabalho, por alcançar uma licenciatura. Valeu-lhe algu-
ma coisa em termos profissionais? Não. Nada. Um irmão, paste-
leiro, sem emprego, conseguiu montar um pequeno negócio,
pastelaria, com a ajuda dos pais. O rapaz pode saber muitos de
bolos e de pão, mas não percebe patavina de organização e do
negócio. Os pais muito menos. A jovem, com a sua licenciatura
nas áreas económicas e de gestão, começou a ser pressionada
pelos progenitores para não só dar ajuda mas para que abando-
ne a sua atividade de funcionária dos Correios, de que ela gosta
imenso e onde tem estabilidade. A moça entrou, em certo mo-
mento, num desespero e num pranto só visto, traduzindo um
fenómeno de burnout mais do que evidente. Não quer sair dos
Correios para ter que dirigir a pastelaria. O sofrimento era mais
do que visível. São pequenos casos, mas para mim são uma fon-
te de preocupação para a qual não vislumbro soluções. Veja-se,
por exemplo, os trabalhadores dos call centers, muitos deles a
trabalharem por objetivos e que têm de ser agressivos para
comprovar o seu desempenho. Um horror dirão uns, uma forma
natural de estar no mundo moderno, dirão outros. O que é certo
são as consequências, algumas vezes imprevisíveis, decorren-
tes desta forma de laborar. A este propósito, forma de laborar
queria citar os casos de suicídios verificados na Telecom Fran-
cesa. Resultam de um stresse levado às últimas consequências.
Mas é só em França? Não, na China observa-se um fenómeno
similar emmuitas atividades industriais, decorrente, neste caso
de uma inadequada organização laboral. Já falei de escravidão,
já falei de maternidade tardia, já falei de suicídios laborais, ape-
nas para realçar o tema. O despedimento prematuro de jovens
com cinquenta anos, por não acompanharem a evolução tecno-
lógica dos nossos dias, constitui uma perfeita obscenidade cria-
da pelos jovens administradores dos nossos tempos que devem
considerar como casos perdidos os trabalhadores com idade
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