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O diagnóstico da asma ocupacional é um processo comple-
xo, havendo necessidade de estabelecer nexos de causalidade
inequívocos entre uma determinada exposição profissional e
o advento das queixas, excluindo outras causas não observá-
veis a nível laboral.
Qualquer trabalhador que sinta dificuldade respiratória ou
queixas como dispneia e/ou pieira quando está a trabalhar
num determinado ambiente ou com exposição a um deter-
minado agente químico ou biológico, deve pensar que pode
estar a ser atingido por esta forma de asma, nomeadamente
quando se verificam melhorias nos fins de semana ou férias e
não existiam prévias queixas respiratórias significativas.
O diagnóstico da asma ocupacional deve ser investigado an-
tes de aconselhar o trabalhador a abandonar o seu local de
trabalho, já que a evicção da exposição prolongada pode in-
fluenciar a fiabilidade dos procedimentos de diagnóstico. As
implicações médico-legais a este nível são muito importantes.
Assim, o diagnóstico resulta essencialmente da integração de
dados relativos à história clínica e ocupacional do doente, tes-
tes cutâneos de alergia, pesquisa de IgE específica (nos casos
de asma ocupacional imunológica IgE mediada), medições
seriadas da função ventilatória no local de trabalho e fora des-
te, estudo funcional respiratório com provocação inespecífica
e por vezes, se necessário, com o agente laboral suspeito.
Essencialmente, a abordagem terapêutica não difere signifi-
cativamente da abordagem geral para a asma brônquica clás-
sica, havendo que avaliar, desde logo, o grau de controlo do
doente asmático, utilizando para o efeito as guidelines pre-
conizadas pelo Programa GINA (
Global Initiative for Asthma
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).
Assim, a terapêutica continuará a passar sempre pelas duas
vertentes clássicas (fármacos de alívio sintomático e fármacos
de controlo da doença) em que a maior importância se dá à
medicação inalada e ao ensino do uso correto dos inaladores.
Idealmente deve haver um afastamento da exposição ao
agente potencialmente causador do quadro clínico. Só após
um significativo período sem quaisquer queixas depois de a
exposição profissional ao agente incriminado ter sido abolida,
se pode considerar o doente profissional como devidamen-
te controlado. Acontece, contudo, que muitas vezes, mesmo
após longa cessação da exposição profissional, não se verifica
a “cura” da doença, mantendo-se a necessidade de terapêutica
diária, para que o doente não apresente sintomas.
A este nível, é fundamental e decisiva a colaboração do do-
ente e o diálogo constante com o médico assistente no senti-
do de cumprir a estratégia terapêutica mais adequada a cada
caso.
A asma ocupacional é uma doença que exige um esforço con-
tínuo entre vários profissionais, em que se destaca o Médico
do Trabalho, o Técnico de Higiene e Segurança e os Médicos
de outras especialidades (nomeadamente a Pneumologia e a
Imunoalergologia).
António Jorge Ferreira
× Professor Auxiliar de Epidemiologia e Medicina Preventiva da Fa-
culdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
× Especialista em Medicina do Trabalho. Especialista em Pneumo-
logia. Assistente hospitalar graduado de Pneumologia do Centro
Hospitalar Universitário de Coimbra (Hospitais da Universidade de
Coimbra), onde é responsável pela consulta de Doenças Respirató-
rias Profissionais desde 2004.
× Mestre em Saúde Ocupacional e Doutorado em Medicina Preven-
tiva e Comunitária pela Faculdade de Medicina da Universidade de
Coimbra, onde é atualmente coordenador do Curso de Pós-gradua-
ção emMedicina do Trabalho e do Mestrado em Saúde Ocupacional.