Magazine Risco Zero #36
magazine risco zero ARTIGO DE INVESTIGAÇÃO - UNIVERSIDADE DE COIMBRA O QUE NÃO SE VÊ TAMBÉM EXPÕE: REPENSAR OS RISCOS OCUPACIONAIS NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO Durante muito tempo, quando se falava em exposição ocupacional, o pensamento dirigia-se quase automaticamente para agentes físicos, químicos ou biológicos. Exposição era sinónimo de ruído, poeiras, substâncias perigosas, temperaturas extremas ou condições ambientais adversas. E continua, naturalmente, a ser. Mas limitar a discussão da exposição ocupacional apenas ao que é visível ou facilmente mensurável pode fazer-nos ignorar alguns dos riscos mais relevantes do trabalho contemporâneo. Dra. Maria Helena Matos Hoje, uma parte significativa do trabalho realiza-se em contextos profundamente diferentes daqueles que estiveram na origem dos modelos tradicionais de prevenção. Trabalhamos mais conectados, mais expostos a estímulos permanentes, commaior pressão temporal, exigência cognitiva e necessidade de adaptação contínua. Em muitos setores, os principais fatores de desgaste deixaram de estar associados apenas ao ambiente físico e passaram também a resultar da forma como o trabalho é organizado, gerido e experienciado. Existem exposições que dificilmente aparecem numa medição ambiental, mas que influenciam diariamente a saúde, o bem-estar e o desempenho das pessoas. A sobrecarga cognitiva, a pressão constante para responder rapidamente, a fragmentação da atenção, a dificuldade em desligar, a imprevisibilidade, a ambiguidade de papéis ou a sensação persistente de urgência são exemplos de exposições menos evidentes, mas cada vez mais presentes. O problema destas exposições é que raramente surgemde forma abrupta. Instalam-se gradualmente e acabam, muitas vezes, por ser normalizadas. Quando todos trabalham no limite, quando a disponibilidade permanente é valorizada ou quando a exaustão se transforma num sinal de compromisso, o risco deixa de ser reconhecido como risco.
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