Magazine Risco Zero Nº13
Aula de uma turma do Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar, em Viana. ENTRE PALAVRAS, COM SENTIMENTO: TESTEMUNHO DA INTERVENÇÃO DA CONDURIL ACADEMY A formação/educação permite-nos reflectir acerca das pes- soas que temos todos os dias a oportunidade de conhecer. Menos diferenciadas, com um sistema de oportunidades, desde o início da sua história, à partida mais limitado, estas pessoas têm uma grelha de leitura da realidade e um modo de estar na vida diferente daquele que vai sendo construin- do por e para nós. É com profunda estranheza que ouvimos alguém, com cerca de 25 anos, dizer que não tem objectivos de vida e vive, exclusivamente para cuidar dos filhos. A es- tranheza, com a reflexão e um pouco de conhecimento acer- ca da sua história de vida, dá lugar a uma profunda lamen- tação pelo seu sistema fraco, à partida, de oportunidades. Parece-nos um discurso cliché, no entanto, é aquela inquie- tação, que nos assalta quando colocamos questões para as quais sabemos que não encontraremos respostas e aquele mal-estar por também sabermos como é limitado o alcance da nossa acção (ou como – esta parte preferimos não saber – também fazemos parte da inércia colectiva que, situando- -se numa das partes mais confortáveis da/o sociedade/ mundo/vida, prefere manter tudo exactamente como está). Quando é que perderam estas pessoas o direito a sonhar? Talvez seja o sonho a medida que melhor permite avaliar a realidade. A ausência de sonho, situada num dos extremos da escala, corresponde ao extremo negativo da realidade. E isso é triste. Por outro lado, tendo em conta a visão objecti- va que avalia necessidades e dificuldades, percebemos que não seria fácil (porque não dizer possível?) encontrar um trabalho mais diferenciado, exigente e compensador (sem- pre definido pela nossa lente de análise do mundo). Por isso, talvez até fosse perverso ter sonhos mais elevados, que se transformariam em utopias, dificilmente concretizáveis. Te- ria consequências mais nefastas para a sua própria constru- ção enquanto pessoa. Assim, até parece positivo não querer nada mais para além daquilo que se pode ter. E assim ser-se feliz. Realizado. Realização essa definida pela sua própria lente de análise do mundo. Mas não é por isso que (visto de “cima”) deixa de ser triste. E o Mundo continua a ser o mesmo local de sempre. Que ciclo tão perverso que nos constrange. Os pais, agora os filhos e depois, muito prova- velmente, os filhos dos filhos, os netos dos filhos, os filhos dos netos... Ciclo inquebrável? E qual o papel do formador no meio de tudo isto? Ajudar a quebrar o ciclo? Como? Pro- movendo a maximização das potencialidades, a exploração do sistema de oportunidades em toda a sua amplitude e /75 mais adequada, correcta, integrada com as suas funções, ex- pectativas laborais e gestão da própria carreira. Com o tipo de população que aqui encontramos, que ingressou cedo no mercado de trabalho, cortando os laços com a formação/edu- cação, é peremptório abordar as questões ligadas à impres- cindibilidade da aprendizagem e formação ao longo da vida e de como, nos dias de hoje, pode ser profícua e elementar num processo de integração e fixação nas empresas, no mundo la- boral. A nossa intervenção pontua-se sempre por uma perspectiva mais abrangente que considera o trabalho e a formação/edu- cação como contextos de compromisso e interdependência. A nossa actuação faz muito mais sentido para nós e para to- dos os nossos alunos e formados, quando está directamente relacionada com a sua actividade laboral, quando vêm e per- cepcionam na primeira pessoa a utilidade prática das apren- dizagens, dos pequenos desenvolvimentos, das grandes con- quistas. Importa compreender que o investimento no campo da formação e educação, por parte dos poucos escolarizados (não exclusivamente), constitui-se como uma mais-valia para os colaboradores em termos profissionais e também pessoais. Desta feita, o investimento em actividades formativas e de aprendizagem (não negligenciando o facto de que todos os contextos de investimento poderem constituir-se como con- textos de aprendizagem) configura-se para a generalidade dos colaboradores oportunidades tanto de aprofundamento de conhecimentos, como de progressão profissional, muitas vezes inscritas nos próprios projectos pessoais. Portanto, a formação e a aprendizagem assumem-se como importantes dimensões na configuração de vida dos colaboradores.
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