Magazine Risco Zero #36

Quando se fala em ruído ocupacional, a primeira preocupação das organizações é, normalmente, a perda auditiva. Mede- se os níveis de ruído para se fazer o mapa de ruído e se afixar nas áreas de trabalho, distribuem-se protectores auditivos e realizam-se exames audiométricos periódicos. Se os resultados estiverem dentro dos parâmetros aceitáveis, assume-se que o risco está controlado. Mas será que está mesmo? Ao longo dos anos, tenho observado uma situação curiosa em muitos ambientes industriais. Trabalhadores expostos diariamente ao ruído apresentam irritabilidade, falam constantemente em tom elevado, demonstram dificuldade de concentração, maior fadiga ao final do dia e, em alguns casos, alterações de humor que acabam por influenciar o ambiente de trabalho e até à vida familiar. No entanto, quando consultamos os relatórios médicos, encontramos uma conclusão aparentemente tranquilizadora: audiometria sem alterações significativas. A questão é que o ruído não afecta apenas os ouvidos, afecta pessoas O cérebro permanece permanentemente exposto a estímulos sonoros que exigem esforço contínuo de adaptação. Mesmo quando não existe perda auditiva mensurável, o organismo continua a reagir. O trabalhador pode terminar a sua jornada fisicamente apta, mas mentalmente esgotado. Pode ouvir bem, mas comunicar mal. Pode apresentar um exame normal e, ao mesmo tempo, conviver diariamente com níveis elevados de stress e desconforto. Dr. Simão António ARTIGO TÉCNICO AUDIOMETRIA NORMAL, TRABALHADOR EXAUSTO: O PONTO CEGO DA GESTÃO DO RUÍDO OCUPACIONAL Dr. Simão António × Técnico Superior de Segurança e Saúde no Trabalho e Gestor de Administração de Empresas × Responsável pelo Departamento de Saúde, Segurança, Ambiente e Riscos (SHER) do Grupo Naval × Mais de 17 anos de experiência em Saúde, Segurança, Ambiente, × Gestão de Riscos e Compliance × Certificações internacionais em ISO 45001, ISO 14001, Willis Blue Compliance e auditorias a sistemas de gestão e especialização em investigação de causas-raiz e implementação de estratégias de prevenção e melhoria contínua Talvez este seja um dos maiores pontos cegos da gestão moderna do ruído ocupacional. Continuamos a monitorizar aquilo que é fácil medir, mas prestamos pouca atenção àquilo que o trabalhador sente e vivencia diariamente. Não se trata de substituir a audiometria nem de questionar a sua importância. Pelo contrário. Trata-se de reconhecer que ela representa apenas uma parte da realidade. A saúde ocupacional evoluiu e hoje exige uma visão mais ampla, que considere também os impactos comportamentais, psicológicos e sociais da exposição ao ruído. A verdadeira eficácia de um programa de controlo de ruído não deveria ser medida apenas pela ausência de perda auditiva, mas também pela capacidade de proporcionar um ambiente de trabalho saudável, seguro e sustentável para as pessoas. Porque, muitas vezes, o trabalhador regressa para casa com uma audiometria normal, mas com um desgaste que nenhum exame foi capaz de identificar. E talvez seja precisamente aí que esteja o problema que ainda não estamos a medir. "Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de avaliar apenas o que o ruído faz aos ouvidos e começarmos a avaliar o que ele faz às pessoas." magazine risco zero

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