Magazine Risco Zero nº22
magazine risco zero Dr. António Sousa-Uva × Médico do Trabalho × lmunoalergologista × Professor Universitário "As relações entre o trabalho e a doença estão a tornar-se cada vez mais complexas e a subvalorização das variáveis individuais nas metodologias de avaliação do risco estão a desvirtuar a própria finalidade da Saúde e Segurança do Trabalho" Artigo completo: Revista Segurança, Edição JUN/JUL/AGO 2021 certo, muito penalizador de qualquer resultado que se pretenda visando a proteção e a promoção da saúde das pessoas que trabalham que é, recordemo-nos, a razão da existência da SHSTLT. Só esse objetivo tornaria, por si só, indispensável uma abordagem "integrada" do diagnóstico e gestão das situações de risco em Saúde e Segurança do Trabalho (SST), independentemente das modalidades de organização dessas mesmas atividades. O resultado final da inter(e trans)disciplinaridade na avaliação e na gestão dos riscos profissionais é, por certo, mais rigoroso e eficaz que o resultado das abordagens sectoriais das diversas disciplinas (já referidas) isoladamente, numa perspetiva de antecipação de potenciais eventos adversos (a tão falada "prevenção" ) que, recorde-se, é o seu grande objectivo. De facto, as situações de risco profissional envolvem toda a complexidade inerente ao indivíduo, às condições de trabalho, à atividade desenvolvida e às características das organizações onde ocorrem e, por isso, devem integrar as especificidades e as competências próprias das diversas áreas disciplinares que possam, de alguma forma, contribuir para a prevenção de efeitos adversos, senão mesmo para a promoção de situações de trabalho que possam influenciar positivamente a saúde de quem trabalha. Mesmo que baseados em diagnósticos de situações de risco tecnicamente bem executados os, agora denominados riscos "emergentes", como são os exemplos paradigmáticos dos fatores de risco de natureza psicossocial, têm características peculiares que determinam diferentes formas de actuação. De facto, pouco conhecimento ainda se dispõe em relação à avaliação desses factores de risco quando comparados com os fatores de risco tradicionais já atrás referidos. Nessas situações, a abordagem abrangente ainda é mais indispensável, se bem que se constate que ao contrário, nesses casos, o enfoque é feito quase exclusivamente nas pessoas (?) como se o ambiente (profissional) não influenciasse a saúde (qual "imagem em espelho" da exposição a factores de risco de natureza física ou química). As relações entre o trabalho e a doença estão a tornar-se cada vezmais complexas e a subvalorização das variáveis individuais nas metodologias de avaliação do risco estão a desvirtuar a própria finalidade da Saúde e Segurança do Trabalho (SST): a proteção e a promoção da saúde das pessoas que trabalham, principalmente nas suas relações com o trabalho e a manutenção da capacidade de trabalho. O resultado final da "integração", que decorre da interdisciplinaridade e do pluriprofissionalismo, na avaliação e na gestão dos riscos profissionais é, semmargem para dúvidas, mais rigoroso e eficaz que o resultado das abordagens sectoriais das diversas disciplinas atuando isoladamente, uma vez que o que está em causa é a saúde (e a segurança) do trabalhador que é una, indivisível e não pode ser refém de interesses corporativos de qualquer uma das disciplinas intervenientes. De facto, qualquer situação de risco no trabalho (trabalho humano, recorde-se) tem sempre um conjunto de fatores na sua origem, incluindo obviamente as variáveis individuais quase sempre, como se referiu, expurgadas de cada situação concreta de trabalho. A essas variáveis individuais também agora se chama "factor humano" (tradução direta de "human factor") numa linguagem mais utilizada pela área da Engenharia (e até por vezes da Ergonomia). As condições de trabalho e a atividade desempenhada incluem sempre o trabalhador que tem as características próprias como, entre outras, a sua própria idade e a sua própria situação de saúde, e que tem que ser valorizado nesse contexto, uma vez que se trata de trabalho humano. como já se referiu. Não há nenhum trabalhador comum "capital de saúde" de 100% e todos são úteis e necessários, nos postos de trabalho compatíveis com a sua "capacidade restante" que determina a necessidade da denominada "aptidão para o trabalho". A avaliação da situação de saúde nunca deve ser utilizada como se se tratasse de uma espécie de "carimbar o ovo" em relação à saúde do trabalhador.
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