Magazine Risco Zero nº22
/39 Essa interação, entre os múltiplos elementos que constituem as situações de trabalho e a atividade do trabalhador, é, também, influenciada pelas características individuais dos trabalhadores e justifica a necessidade do concurso de várias (e diversas) áreas científicas e/ou disciplinares. E mesmo assim, quase sempre apenas ligadas às abordagens dos aspetos "negativos" que o trabalho pode comportar para a saúde de quem trabalha. Se interviermos nos aspetos "positivos" que o trabalho pode (e deve) ter na saúde, será necessário acrescentar outras tantas áreas às já enunciadas e, talvez, ainda essas interações sejam de uma maior complexidade. Aqueles aspetos negativos estãomuito para alémda ocorrência dos acidentes de trabalho, que há muito coloniza a atenção de todos em matéria de Saúde, Higiene e Segurança dos Trabalhadores nos Locais de Trabalho (SHSTLT), abrangendo um importante leque de situações que, para além das doenças profissionais e das doenças relacionadas (e agravadas) pelo trabalho, abrangem ainda inúmeros aspetos relativos a relações ainda mal conhecidas como é o caso da exposição a novas substâncias químicas ou as potenciais repercussões na saúde de novos métodos de trabalho, como é são os exemplos da "uberização" ou do teletrabalho (tão actuais) e ainda a aspetos incompletamente compreendidos como as algias (por exemplo as cefaleias, as raquialgias ou as lombalgias), a fadiga ou a carga de trabalho. De facto, relações trabalho/lesão são mais fáceis de compreender relativamente a relações de maior complexidade que se expressam, muitas vezes, alguns anos após a exposição e que se confundem com doenças naturais. Talvez seja essa uma das razões para a pouca (ou quase nenhuma) valorização das doenças profissionais. No entanto, estimativas da Organização Internacional do Trabalho, entre outras, apontam para que em cada 10 a 15 segundos um trabalhador morra por acidente de trabalho ou por "doença ligada ao trabalho" e outras 160 sejam vítimas sem desfecho mortal, sendo preponderantes estas últimas. Obviamente que são estimativas que deveriammerecer melhor atenção por parte de todos. Tal representa uma estimativa de um total de, pelo menos, mais de 6.300 mortes por dia ou mais de 2,3 milhões casos por ano. Estima-se ainda que tal represente, para além dos custos intangíveis a que mais se dedica a Saúde Ocupacional, cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) o que lhe confere também uma dimensão económica não despicienda. Outro aspecto importante reside na circunstância de parecer existir a perspetiva dominante que os aspetos da Saúde Ocupacional pertencem à área da saúde (em sentido restrito e "popular", leia-se "medicina") a quem se recorre quando é absolutamente indispensável (v.g. estar doente). Por outro lado, as áreas de conhecimento centradas essencialmente no ambiente (de trabalho), na actualidade, actuam muitas vezes hipovalorizando os aspectos individuais ou, quanto muito, reportando-os a uma abstracção do denominado "trabalhador médio" ou referenciando a sua ocorrência essencialmente a elementos negligentes do trabalhador. Tais presunções, independentemente do modelo de organização dos serviços de prestação de SST, expressam-se, por exemplo, na opção dominante em intervenções isoladas de cada um dos grupos de técnicos. Dito de outra forma, a avaliação do risco não tem em conta as variáveis individuais no trabalho que é, recorde-se, "humano" e nunca do "humano médio" (conceito abstracto e indefinível). São disso bons exemplos as consequências potenciais para a saúde de um trabalhador com hiperreactividade brônquica exposto a um qualquer irritante da árvore respiratória em relação a outro trabalhador não portador dessa hiperreactividade ou os efeitos de toxicidade de uma substância química eliminável por via urinária num insuficiente renal. Será possível que tal aconteça apenas para os fatores de risco de natureza química e física e, por exemplo de forma inversa, para os fatores de risco psicossociais só as variáveis individuais sejam valorizadas? Não será, no mínimo "incompleto" ou mesmo "confuso" tal tipo de abordagem? Será que as questões relativas aos prestadores que se refugiam na sua área de conhecimento se sobrepõem ao seu objeto de estudo (e de intervenção), a saúde e a segurança de quem trabalha que justifica, de resto, essa mesma prestação? Por outro lado, a Medicina do Trabalho e outras disciplinas centradas essencialmente nos indivíduos intervêm, frequentemente, não tendo em conta (ou subvalorizando) a componente ambiental e evitando, dessa forma, a complexidade das interdependências entre a saúde dos trabalhadores e o ambiente de trabalho. Dito de outra forma, também se "refugiam" na "segurança" das metodologias de cada especialidade, por exemplo exercida em consultórios, "desprezando", muitas vezes, o respetivo contexto de trabalho. O desfecho final do "isolamento" dessas duas abordagens é, por
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