Magazine Risco Zero nº18

magazine risco zero Professor Doutor António Jorge Ferreira ARTIGO PROFISSIONAL TUBERCULOSE OCUPACIONAL EM SERVIÇOS DE SAÚDE Não obstante a evolução epidemiológica favorável no que diz respeito à incidência e prevalência da Tuberculose (TB) em vários países do mundo, esta infeção não deixará súbita ou brevemente de continuar a ser um enorme desafio para a saúde global. Nas últimas décadas rapidamente se compreendeu que não está (nem aparentemente esteve próxima) a tão desejável erradicação da doença. Por outro lado, inúmeros casos mundiais de coexistência de infeção pelo Mycobacterium tuberculosis (MT) e infeção pelo VIH, fazem com que devam ser adaptadas estratégias globais de combate a ambas doenças. Em 26 de setembro de 2018, a Assembleia Geral das Nações Unidas decidiu realizar a primeira reunião de alto nível sobre a luta contra a tuberculose, sob o tema “Unidos para acabar com a tuberculose: uma resposta global urgente a uma epidemia global” Passados quase dois anos desde esta histórica reunião de alto nível das Nações Unidas (ONU) que reuniu diversos líderes mundiais para acelerar a resposta à tuberculose, verifica- se que os compromissos assumidos na reunião estão a ser postos em ação por diversos países, apoiados pela iniciativa “Find. Treat. All. #EndTB” da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Parceria Stop TB e o Fundo Global de Combate à SIDA, Tuberculose e Malária (1). Asmortes relacionadas coma TB apenas caíramde 1,6milhões em 2017 para 1,5 milhões em 2018. Segundo a OMS, a TB continua a ser a principal causa de morte infeciosa mundial, com 10 milhões de novos casos de doença identificados em 2018 (1). Embora alguns países estejam a acelerar significativamente sua resposta à TB, a maioria das regiões da OMS ainda não está, infelizmente, no caminho de alcançar os marcos de 2020 da Estratégia para o Fim da TB (End TB Strategy). O último relatório da OMS refere que cerca de 3 milhões de pessoas com TB não tiveram acesso a um atendimento de qualidade em 2018. A situação é ainda mais aguda para pessoas com TB resistente a vários antibióticos, com apenas um em cada três doentes a ter acesso a tratamento (1). Entre as principais metas globais da declaração política da Estratégia da OMS para a TB incluem-se: • tratar 40 milhões de pessoas contra a TB no período de 5 anos: 2018-2022; • alcançar pelo menos 30 milhões de pessoas com tratamento preventivo da infeção latente TB no período de 5 anos: 2018-2022; • mobilizar pelo menos 13 mil milhões de dólares por ano para o acesso universal ao diagnóstico, tratamento e assistência da TB até 2022; • mobilizar pelo menos 2 mil milhões de dólares anualmente para a pesquisa em TB (1). Os 14 países que estão simultaneamente nas três listas OMS (países com alta expressão de TB, TB/VIH e Tuberculose multirresistente) são Angola, China, República Democrática do Congo, Etiópia, Índia, Indonésia, Quénia, Moçambique, Mianmar, Nigéria, Papua Nova Guiné, África do Sul, Tailândia e Zimbabué (1). Naturalmente os profissionais de saúde estão em maior risco de TB em comparação com a população em geral, apesar dos esforços para aumentar o controle de infeções e reduzir a transmissão nosocomial da TB. É, desta forma, muito importante conhecer adequadamente, a nível local, dados atualizados do risco ocupacional de infeção latente por TB e TB ativa entre os profissionais de saúde, em comparação com a população em geral (2). Uden e col. Efetuaram uma revisão sistemática para identificar estudos publicados entre 2007 e 2017 com dados de prevalência ou incidência de TB entre os profissionais de saúde e grupos controlo. A prevalência de TB latente entre os profissionais de saúde foi de 37% e a taxa de incidência média de TB ativa foi de 97/100 000 por ano. Comparativamente à população em geral, o risco de TB latente foi maior para os profissionais de saúde (odds ratio [OR], 2,27; IC95% 1,61– 3,20), e a taxa de incidência de TB ativa foi de 2,94 (IC95% 1,67-5,19). Comparando o teste cutâneo de tuberculina e o teste de imunoensaio de interferon-gama, o odds ratio para TB latente foi de 1,72 e 5,61, respetivamente, o que mostra a grande importância do adequado seguimento ocupacional dos profissionais de saúde, nomeadamente em países com elevados níveis de incidência e prevalência. Torres da Costa e col. (3) realizaram um importante estudo em Portugal, envolvendo 4735 trabalhadores hospitalares selecionados entre maio de 2005 e setembro de 2008. O teste cutâneo de tuberculina (TST) e o teste de interferon-γ (IGRA) Entre os principais riscos biológicos ocupacionais nas organizações, um dos mais preocupantes é precisamente a Tuberculose ocupacional.

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