Magazine Risco Zero Nº 14

/59 Que ajudas gostariam de receber para melhorar a vida das vossas famílias? Conceição Gonga: Nos dias de hoje tudo é difícil. Portanto, precisamos de alimentos e para que estes sejam possíveis precisamos de terras para cultivar. A título de exemplo, é só olharem para o terreno em que nos encontramos agora: é uma zona de cultivo provisório porque receamos que apareça alguém que se arrogue a titularidade deste espaço. Portanto, a nossa condição é tão precária que nem mesmo temos fazer planos consistentes para o futuro. O que mais queríamos era termos a garantia das autoridades que determinadas áreas, à volta das cidades, seriam preservadas para as pessoas provenientes de zonas rurais. Como é que resolvem o problema do acesso à água potá- vel nas vossas aldeias? Rosa Kapemba: Nalguns casos existem chafarizes, mas na maioria das fazes as pessoas devem percorrer longas distâncias a fim de a conseguirem dos rios. Obviamente, toda a água que consumimos, incluindo aquele dos chafarizes, não é potável. Tudo quanto fazemos para preservar a saúde é desinfectá-la. Existem condições sanitárias criadas nas aldeias que per- mita o uso de casas de banho? Teresa Gonga: Não existem condições sanitárias para todas as pessoas. A maioria das pessoas defeca à volta da aldeia, em céu aberto. Esta situação é agravada pelo difícil acesso à água, tornando a questão da higiene pessoal uma questão de luxo e as doenças provocadas pelos fracos cuidados com a limpeza do nosso corpo um problema real nas aldeias. O trabalho do campo é suficiente para o sustento das vos- sas famílias? Maria João: Certamente que não. Era desejável o fruto do nosso trabalho nos proporcionasse quantidades que servissem para o consumo, para a venda e fruto dessa venda nos potenciasse com o dinheiro para comprar outros produtos industrializados. Mas o facto, é que os meios utilizados só nos permite colher mínimas quantidades. Nalgumas áreas as fracas precipitações condicionam tudo no campo e chegamos mesmo a nos dedicamos à venda de latas e plásticos em Luanda. Portanto, a nossa vida é extremamente difícil, sobretudo, nos dias que correm da crise. Como viveriam as famílias sem os alimentos provenien- tes do campo? Conceição Gonga: A população que habita em zonas distantes das cidades não conseguiria sobreviver sem os produtos do campo. Apesar das vicissitudes da vida, a terra continua a ser a mais generosa para com este povo e sem ela as pessoas pereceriam de fome. Os alimentos do campo são a principal fonte de alimentação dos habitantes e de outros recursos. Nos dias de hoje, também os homens se dedicam ao traba- lho do campo, ajudando as suas mulheres ou esta respon- sabilidade é assumida unicamente pelas mulheres? Rosa Kapemba: Alguns homens também se dedicam ao campo a par de outras actividades como a caça, à pesca artesanal, à produção do óleo de palma e do maruvu (bebida local extraída da palmeira, etc. As mulheres, além do cultivo da terra, são elas também responsáveis pela venda dos produtos do campo e, regra geral, as que transportam na cabeça os produtos, sempre que não houver meios de transporte. Quais são os principais perigos enfrentados pelas mulhe- res no meio rural? Maria João: Os principais perigos enfrentados pelas mulheres são as cobras, os trabalhos que envolvem o uso da catana e da enxada, os espinhos secos de plantas, os pedaços pontiagudos de arbustos cravos no solo, os caminhos à lavra escorregadios durante o tempo das chuvas, os ataques de crocodilos à beira dos rios, os movimentos repetitivos e diários com os instrumentos do campo, a postura inclinada para cavar a terra, o transporte de mercadorias pesadas na cabeça por troços muito longos, os raios eléctricos originados pelas forças naturais na atmosfera, a utilização de agrotóxicos e fertilizantes sem o conhecimento dos efeitos nocivos dos mesmos, etc. São dentre outros estes os principais problemas enfrentados pela mulher rural. Dr. Manuel Inácio × Director Geral-Adjunto do CSST para a área de SHT

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