Magazine Risco Zero Nº 14

magazine risco zero antes e durante a aplicação destes agentes. A diminuição de 50% na atividade da colinesterase é geralmente indicadora de toxicidade aguda. A inibição da mesma por carbamatos (outro tipo de pesticidas) é mais lábil, reversível e de duração mais curta. Aliás, se a exposição destes for interrompida, a semiologia regride em até 24 horas. Relativamente à relação existente entre os pesticidas e a reprodução, acredita-se que estes consigam alterar a circulação e biodisponibilidade das hormonas sexuais; localmente e/ ou por atingimento da hipófise; apesar de controverso. O número de espermatozoides (total e viáveis) poderá diminuir, podendo também surgir alterações morfológicas. As fertilidades masculina e feminina podem ficar comprometidas. O risco de aborto está aumentado em grávidas expostas diretamente ou através dos conviventes e o risco revelou-se superior quando o primeiro trimestre coincidiu com a aplicação o produto. A associação entre a exposição pré-natal a pesticidas e o crescimento fetal apresenta resultados contraditórios na literatura; alguns defendem gestações discretamente mais curtas e/ ou atingimento do crescimento fetal. Noutras investigações ainda há menção a maior risco de malformações orofaciais, hemangiomas, alterações no sistema nervoso central (como espinha bífida e hidrocefalia) e no sistema musculo- esquelético- mas tal não é consensual. Em comparação com os adultos, as crianças, dada a sua menor estatura, são mais suscetíveis a estes agentes; para além disso, estas muito frequentemente permanecem no chão e colocam objetos na boca, pelo que a sua exposição poderá ser superior à dos adultos não agricultores. Outros agentes químicos Também se encontra na literatura referência às emissões dos motores a diesel utilizados neste setor profissional, que estão classificadas como “provavelmente cancerígenas emhumanos”. No contexto dos gases tóxicos, por exemplo, destacam-se os óxidos de nitrogénio (originados por fermentação); a concentração pode atingir um nível letal em apenas algumas horas de armazenamento, sobretudo na ausência de ventilação eficaz e/ou uso de EPIs adequados. Os fertilizantes, por sua vez, são constituídos por alguns produtos que, quando aquecidos, poderão ter propriedades explosivas. Os rodenticidas (usados para controlar os roedores) são agentes anti-coagulantes que, apesar de eventualmente fatais para os humanos também, parte deles dispõe de antídoto eficaz. Risco de acidentes/ utilização de máquinas Considera-se que a agricultura apresenta um risco de acidentes mortais seis vezes superior, quando comparada com a generalidade das indústrias, nos EUA. Na Dinamarca, por exemplo, esse valor foi o dobro do estimado para a construção civil. Cerca de cem crianças morrem anualmente nos EUA por acidentes em explorações agrícolas, sendo que cerca de 22000 são alvo de acidentes não fatais. Entre os primeiros é dado particular destaque aos tratores (59%); secundariamente existem também situações relacionadas com animais e quedas. Outro estudo mencionou que 19% dos acidentes mortais e hospitalizações por acidentes agrícolas globais atingem crianças- aliás a sociedade rural tem mais permissividade perante o trabalho de menores. Ainda assim, acredita-se que os dados estatísticos (sobretudo os relacionados com as doenças profissionais e acidentes não fatais) pecampor defeito, dada a ausência/ ineficácia da higiene, segurança e saúde no trabalho ou de qualquer entidade que assuma esse registo com rigor, na generalidade dos países. Comparando comoutras profissões, os agricultores geralmente trabalham mais horas (o que implica maior fadiga) e, com frequência, sozinhos, o que poderá aumentar o risco de acidente. A mecanização diminuiu alguns riscos e melhorou as condições de trabalho, mas também fez despoletar riscos novos. Para alémdisso, na agricultura há tambémmenor cumprimento da idade de aposentação, pelo que é mais frequente neste setor a prática laboral de pessoas muito idosas, sendo os acidentes fatais mais prevalentes nos extremos de idade. O exemplo dos tratores Os acidentes relacionados com estes veículos (capotamentos, atropelamentos, colisões) asseguram um terço dos acidentes fatais nos EUA, neste setor. Também na Austrália, por exemplo, estes veículos detêm destaque equivalente; contudo, enquanto que a maioria dos acidentes profissionais diminuiu nas últimas décadas neste país, no caso da agricultura, os valores mantiveram-se mais ou menos constantes e cerca de quatro vezes superiores aos valores das atividades industriais. As situações de capotamento são muito mais frequentes do que noutros veículos, devido ao facto de a estrutura perder o seu centro de gravidade com muita facilidade, em solos

RkJQdWJsaXNoZXIy MjA1NDA=