Magazine Risco Zero Nº 14

Professor Doutor António Jorge Ferreira × Professor Auxiliar de Epidemiologia e Medicina Preventiva da Fa- culdade de Medicina da Universidade de Coimbra. × Especialista em Medicina do Trabalho. Especialista em Pneumo- logia. Assistente hospitalar graduado de Pneumologia do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (Hospitais da Universidade de Coimbra), onde é responsável pela consulta de Doenças Respirató- rias Profissionais desde 2004. × Mestre em Saúde Ocupacional e Doutorado em Medicina Preven- tiva e Comunitária pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde é atualmente coordenador do Curso de Pós-gradua- ção em Medicina do Trabalho e do Mestrado em Saúde Ocupacio- nal.” Os padrões de exposição podem ser intensos, sobretudo nos esforços iniciais de supressão. Os turnos de trabalho são muitas vezes não inferiores a 12-18 horas e em grandes incêndios podem durar muitos dias. No combate aos fogos florestais, não é viável a utilização de um aparelho de respiração auto-suficiente; muitas vezes a única proteção respiratória utilizada é uma bandana de algodão que cobre o nariz e a boca. Além disso, muitas das tarefas de combate a incêndios florestais são fisicamente exigentes e necessitam de taxas de ventilação pulmonar elevada, o que pode resultar em doses inaladas substanciais, devido ao aumento do volume corrente respiratório e da frequência respiratória. Por outro lado, os acampamentos-base onde estes bombeiros repousam, podem prolongar a sua exposição, o que está muitas vezes dependente das características meteorológicas e geográficas locais (25). A inalação de matéria particulada nos acampamentos pode ser tão ou mais elevada como a própria exposição durante as atividades de combate a incêndios (26). Liu e col. avaliaramo efeito da exposição a fumos de incêndios florestais na função respiratória de 63 bombeiros das áreas do norte da Califórnia e do Montana, durante e após a época de incêndios de 1989, verificando reduções individuais médias significativas de 0,09; 0,15 e 0,44 L/seg nos valores pós-temporada de CVF, FEV1 e DEM25-75, respetivamente, em comparação com os valores pré-temporada. Não foram demonstradas relações significativas entre os parâmetros de espirometria e as co-variáveis género, história de tabagismo, história de asma ou alergias, anos como bombeiro, sintomas respiratórios superiores/inferiores ou tipo de equipa. Houve, também, um aumento estatisticamente significativo da hiper- reatividade brônquica na prova de metacolina (p = 0,02) (23). Reinhardt e Ottmar efetuaram medições entre os bombeiros expostos em 13 incêndios florestais no Oeste dos Estados Unidos entre 1992 e 1995, demonstrando que, embora a maioria das exposições não tenham sido significativas, 3 a 5 por cento excederamos limites de exposição ocupacional para o monóxido de carbono e para alguns irritantes respiratórios. A exposição ao benzeno e a partículas em suspensão não foi significativa, embora os autores reconheçam algumas limitações na medição das últimas. As maiores exposições de curto prazo ocorreram durante as fases iniciais do combate e sobretudo nos bombeiros envolvidos na primeira linha de combate, excedendo em várias ordens de grandeza os limites de exposição ocupacional recomendados. Os valores médios de PM3,5 medidos foram de 0,72 mg/m3 (pico de 2,93 mg/ m3) e os de monóxido de carbono foram de 4 ppm (pico ponderado para duas horas de 38,8 ppm). Segundo este estudo, os autores preconizaram que a exposição a acroleína, benzeno, formaldeído e partículas respiráveis poderia ser prevista a partir das medições de monóxido de carbono, uma vez que se obtiveram valores de correlação entre 0,44 e 0,91. Por outro lado, as observações mostraram que a exposição excessiva ao fumo ocorre sobretudo quando os bombeiros realizaram uma tarefa especialmente urgente ou quando o clima (nomeadamente as mudanças da direção e intensidade do vento) ou a alteração da dinâmica do fogo assimo exigiram, fazendo com que muitos bombeiros ignorem a irritação provocada pela exposição ao fumo, enquanto se concentram em tarefas emergentes (27). Em Portugal e com o objetivo principal de caracterizar a função respiratória de bombeiros voluntários portugueses no ativo, expostos a fumos de incêndios florestais, Almeida e col. realizaram um estudo descritivo, transversal e observacional, onde foi verificado um padrão espirométrico obstrutivo num elevado número de bombeiros (11,8%). Contudo, na amostra selecionada de 209 bombeiros, 42,9% dos indivíduos apresentavam hábitos tabágicos regulares. Esta prevalência de padrão obstrutivo era superior à prevalência nacional de DPOC, nomeadamente no grupo com idade inferior a 40 anos (28). Também Miranda e col. reportaram valores de exposição consideráveis referentes a medições de matéria particulada, SO2 e NO2 efetuadas em incêndios florestais experimentais, através de monitores individuais em bombeiros expostos e da monitorização do ar ambiente (que constituíram a primeira medição do género na Europa) (29). Conclui-se, pois, que este é um grupo ocupacionalmente exposto a riscos respiratórios significativos, necessitando de acompanhamento e vigilância atentas. Referências bibliográficas: https://bit.ly/2tSZvNt magazine risco zero

RkJQdWJsaXNoZXIy MjA1NDA=