Magazine Risco Zero Nº 14
Inúmeros estudos têm dado particular ênfase às alterações de saúde (nomeadamente respiratórias) de bombeiros em diversas situações específicas de risco; foi precisamente isso que aconteceu nos EUA após o atentado terrorista do World Trade Center (WTC), em que a exposição maciça verificada nas primeiras horas e dias após o colapso das Torres Gémeas se veio a relacionar com efeitos graves para a saúde do pessoal das forças de segurança e de proteção civil que mais cedo acorreram a este sinistro. As poeiras altamente alcalinas resultantes (pH entre 9 e 11), eram constituídas por partículas contendo (sob a forma pulverizada) cimento, fibra de vidro, amianto, chumbo, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, bifenilos policlorados, dioxinas e furanos. Houve, de igual modo, exposição significativa a matéria particulada, nomeadamente PM2,5 que esteve muito elevada nos dias subsequentes (3). Nas primeiras 24 horas após o ataque ao WTC, 240 bombeiros de Nova Iorque procuraram tratamento médico de emergência; destes, 50 (20,8%) receberam tratamento por sintomas respiratórios agudos causados pela inalação de fumos e poeiras. A avaliação de milhares de bombeiros expostos revelou aumento da tosse, da hiper-reatividade brônquica e do risco de asma (3, 4). Situações de patologia intersticial pulmonar (5-8) e de alguns tipos de cancro, também poderão estar relacionadas com os eventos pós- atentado no WTC (9). Não obstante este acontecimento ter dado particular importância mediática aos riscos inalatórios dos bombeiros, continua a dar-se mais relevo aos riscos que ocorrem em ambiente confinado, nomeadamente no combate a incêndios industriais ou urbanos (10-12), em que, contudo, são habitualmente usados equipamentos de proteção respiratória com ar comprimido autónomo. Fabian e col. publicaram um estudo onde caracterizaram as exposições de risco de bombeiros urbanos da cidade de Chicago, maioritariamente envolvidos em incêndios estruturais. Nas determinações efetuadas, estavam muitas vezes ultrapassados os valores máximos de exposição recomendados pela ACGIH, quer para partículas respiráveis, quer para várias substâncias químicas. As partículas que foram coletadas durante os incêndios através de impactadores de uso pessoal, revelaram a presença de agentes com potencial tóxico e/ou carcinogénico (arsénico, cobalto, crómio, chumbo, níquel e fósforo) (13). Tem sido exaustivamente estudada a toxicologia específica dos principais efluentes do fogo, onde se destacam inúmeras substâncias com ação asfixiante (monóxido de carbono, ácido cianídrico), irritante (ácido bromídrico, ácido clorídrico, ácido fluorídrico, dióxido de enxofre, substâncias organo-irritantes, tais como: acetaldeído, acroleína, benzeno, crotonaldeído, formaldeído, fenol, tolueno) e gases de estufa como o dióxido de carbono e o metano; também os níveis muito baixos de oxigénio presentes em zonas de incêndio podem ser preocupantes (14). Existem, também, importantes interações entre estes diversos compostos, que estão dependentes dos materiais queimados, com risco adicional de sinergias muito perigosas. No geral, a maior parte das mortes relacionadas com os incêndios ocorre por inalação de monóxido de carbono, com algum contributo de outros gases tóxicos, onde se destaca o ácido cianídrico (15). Há uma inexistência global de estudos epidemiológicos abrangentes sobre os efeitos dos incêndios florestais na saúde de bombeiros, sendo que a maior parte dos dados que se encontram disponíveis se referem aos EUA. Entre 1910 e 2004, neste país, faleceram 918 bombeiros em situações relacionadas com o combate a incêndios. Entre 1990 e 2008, as três principais causas de mortalidade foram acidentes em aeronaves, queimaduras e enfartes de miocárdio; o grupo dos bombeiros voluntários foi o de maior risco, sendo que 42% da mortalidade deste grupo específico se verificou por causas cardíacas (1). As perturbações respiratórias de maior preocupação em bombeiros ocupacionalmente expostos (para além do risco eventual de cancro de pulmão) são, sobretudo, as doenças crónicas das vias aéreas (16). Os primeiros estudos publicados sobre esta matéria nos anos 70 e 80, lançaram uma onda de preocupação generalizada, pois demonstraram um declínio superior ao expectável da função respiratória em bombeiros. A gravidade das alterações estava dependente do tempo e tipo de exposição e do escasso uso de equipamentos de proteção individual. Contudo, a maioria destes estudos referia-se ao combate a fogos urbanos e industriais e não especificamente a incêndios florestais (17- 22). Posteriormente, já nos anos 90, começaram a ser publicados os primeiros estudos que avaliaram o impacto do combate a fogos florestais na função ventilatória, demonstrando quer o decréscimo de vários parâmetros após um turno de trabalho, quer após todaa épocade incêndios. Nageneralidade, osdados sugerem que o combate a incêndios florestais está associado a discreta diminuição da função pulmonar e aumento da hiper-reatividade brônquica e que estas associações são independentes do tabagismo, asma ou alergias, número de anos como bombeiro, idade, género ou tipo de equipa de trabalho (1, 23, 24). Em geral, os bombeiros envolvidos em incêndios florestais experimentam uma muito maior exposição ao fumo de incêndios florestais que os membros do público em geral. /23
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy MjA1NDA=