Magazine Risco Zero Nº13

/73 “Que partido tomar? Onde estou e quem devo ser? Nascido sem nada, no mundo deitado, Germe nascente pelo vento levado, Em que terra posso ter esperança de crescer? Como encontrar um estado, um lugar? Sobre o meu destino, peço-vos, elucidai-me, É preciso instruir-se e examinar-se a si próprio, Interrogar-se, acreditar só em si mesmo, No seu instinto, conhecer bem aquilo que amamos; E, sem procurar conselhos supérfluos, Assumir o estado que mais vos agradar.” - Voltaire PAPEL DO FORMAÇAO E EDUCAÇÃO NO MUNDO DO TRABALHO De um modo geral, o emprego pode ser observado segundo dois planos, ummacro global e económico e outro micro, pes- soal e indulgente. Por um lado, analisando segundo o plano macroestrutural, no âmbito do qual emergem variados temas, é evidente que a reorganização das estruturas de poder eco- nómico, a nova divisão internacional do trabalho e os agen- tes de competitividade, as transformações no paradigma do trabalho ou o papel protector do Estado Social, conduziram à desresponsabilização na garantia do direito ao trabalho, incumbindo essa tarefa para a responsabilidade individual. Posto isto, o conceito de empregabilidade (que substituiu o direito ao trabalho) remete para a responsabilização pessoal, devendo assim cada qual assegurar a sua empregabilidade. Por outro lado, o emprego pode ser observado segundo um plano micro, pessoal e indulgente, ou seja, no plano concre- to das vidas dos indivíduos e das suas famílias, das respecti- vas condições de existência, quer materiais, quer simbólicas. Deste modo, aqueles que não se moldam ao ritmo das mu- danças, que não se adaptam às competências e qualificações reivindicadas pelos novos modos de produção (o just-in-time, o out-sourcing ou a flexibilidade funcional), aqueles que não oferecem perfomances consentâneas, que não são rentáveis nem competitivos, que não estão aptos para conviver com as novas regras impostas pelo mercado, são liquidados para a margem do sistema produtivo, avolumando os números do desemprego. Efectivamente, são as próprias circunstâncias de inserção e de participação na vida social dos indivíduos e das famílias, pela via do trabalho, que são postas em causa, com as consequências que daí perpassam, nomeadamente na relação mantida com a sociedade e na construção da própria identi- dade. Na verdade, a experiência do desemprego vivida pelo indivíduo no orbe social e económico contamina necessaria- mente a esfera da sua vida privada e familiar. Assim, a ausên- cia de emprego, especialmente se for prolongada, origina uma panóplia de efeitos que não podem ser circunscritos à simples dimensão material do rendimento, do consumo. Também os efeitos no domínio do simbólico são tidos em consideração, como a quebra na criação e manutenção de vínculos sociais, mudanças no estilo de vida, no estatuto social, na forma como se é visto e reconhecido pelos outros ou mesmo nas novas relações de dependência criadas. Pode assegurar-se que na medida em que aumenta a precari- zação, na medida em que a insegurança se difunde, na medi- da em que se multiplica o desemprego, enfim, na medida em que o trabalho assalariado penetra a crise, entra também em crise toda a estabilidade e linearidade que lhe havia estado associada no passado. Com efeito, a precarização, a incerte- za dos postos de trabalho e, principalmente, o desemprego, estão a constituir-se como tendências da dinâmica social da sociedade angolana actual, assumindo, por essa via, novas (e repetidas) formas de exclusão, decorrentes da percepção de privação dos benefícios sociais (latentes) funcionalmente associados ao emprego e à contribuição (manifesto). Desta forma, proclama-se o questionamento de uma pluralidade de valores socialmente construídos, nomeadamente em relação à educação, à formação e ao trabalho, o que faz precaver a necessidade de que tanto os indivíduos, como as instituições/empresas e a inerente sociedade efectuem novas aprendizagens que lhes permitam lidar, de modo construtivo, com as mudanças e desafios que se lhes colo- cam no contexto actual.

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