Magazine Risco Zero Nº13

aproximaram-se de 40%, havendo uma forte sugestão de efeitos sinérgicos e aditivos entre risco de DPOC e tabagismo e profissão (13). Também noutro estudo de 2012 de Mehta e col., valores mais elevados de risco atribuível profissional foram mencionados, chegando a atingir 43 a 56% em não fumadores, numa coorte de trabalhadores suíços estudados (14). A DPOC ocupacional é em tudo sobreponível à DPOC de outras etiologias, nomeadamente a tabágica, o que coloca especial dificuldade na estratificação do risco atribuível entre vários fatores causais sinérgicos e concomitantes, o que pode, por exemplo, dificultar a atribuição médico-legal de incapacidade (15). Entre as principais dificuldades no estudo da DPOC ocupacional referem-se: • Os trabalhadores doentes são em tudo indistinguíveis dos casos de DPOC não ocupacional; • Em geral, no início da prática laboral, observa-se em média, um melhor estado de saúde (“efeito do trabalhador saudável”) com valores espirométricos que podem até ser mais altos do que o expectável; • Os estudos prospetivos podem mostrar um abandono mais precoce pelos trabalhadores que desenvolvem maior agravamento funcional, a que corresponde mudança de trabalho ou aposentação precoces (15). Nos agentes etiológicos ocupacionais mais frequentemente observados, destacam-se: • Poeiras orgânicas (trabalho em corte e processamento de madeiras, exposição a poeiras de cereais, trabalho agrícola e na pecuária, trabalho em silos, havendo frequentemente contaminação microbiológica concomitante por endotoxinas e micotoxinas); • Fumos e poeiras metálicas (alumínio, ósmio, cádmio, vanádio, usados sobretudo no trabalho metalúrgico, na indústria do aço, produção de zinco e soldadura de diversos tipos); • Fumos da combustão diesel; • Poeiras mistas, contendo minerais e material orgânico (indústria extrativa e construção) (16). Por outro lado, o fumo de tabaco ambiental pode, também, ser considerado uma causa de DPOC em nunca fumadores, nomeadamente em países sem legislação mais restritiva (17). O diagnóstico clínico de DPOC deve ser considerado em qualquer doente com dispneia, tosse ou expetoração crónica e uma história de exposição a fatores de risco para a doença. A espirometria é necessária para fazer o diagnóstico neste contexto clínico: a presença de um quociente pós- broncodilatador entre o volume expirado forçado no primeiro segundo e a capacidade vital forçada (FEV1/CVF) <0,70 confirma a presença de limitação do fluxo aéreo persistente e é fortemente sugestiva de DPOC (1). AavaliaçãodaDPOCconsideraváriosaspetosdadoença: nível atual de sintomas, gravidade das alterações espirométricas, risco de exacerbação e presença de co-morbilidades. A compreensão do impacto da DPOC no doente individual sofreu grande evolução nas últimas recomendações internacionais (Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease: GOLD), sobretudo a partir de 2011 e combina atualmente a avaliação sintomática com a classificação espirométrica e/ou risco de exacerbações do doente, considerando quatro categorias de doença (A, B, C e D) (1). Atendendo a que o diagnóstico de DPOC ocupacional é pouco frequente, os clínicos, nomeadamente na área da Medicina do Trabalho, devem estar particularmente atentos a todas as potenciais causas ocupacionais em doentes que apresentam obstrução irreversível de vias aéreas, sobretudo em nunca fumadores, ou indivíduos sem história prévia de atopia ou asma. A estratégia diagnóstica mais importante baseia-se numa história clínica e ocupacional exaustivas, nomeadamente no que diz respeito ao trabalho atual e passado, duração das diversas exposições de risco, cronologia dos sintomas, uso prévio e atual de equipamentos de proteção individual (EPI) e descrição da ventilação dos locais de trabalho (16, 18). O rastreio espirométrico e a administração de inquéritos respiratórios tomam aqui particular destaque (16, 19, 20). Neste momento, já existem softwares específicos para a avaliação longitudinal das alterações espirométricas de forma mais fácil, como é o caso do SPIROLA (Spirometry Longitudinal Data Analysis Software). A aplicação de software espirométrico em programas de monitorização contínua ocupacional ajuda a identificar com mais facilidade e de forma mais homogénea e reprodutível, os trabalhadores com excesso de declínio da função pulmonar, que podem corresponder precisamente a casos de DPOC ocupacional (21). /25

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