Drª Maria Maeno
Possui graduação em Faculdade de Medicina pela Universidade de São Paulo (1982) e mestrado em Saúde Pública pela Universidade de São
Paulo (2001). De 1987 a 2006 foi médica da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, tendo integrado a equipa do Programa de Saúde dos
Trabalhadores da Zona Norte de São Paulo, que originou o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador do Estado de São Paulo, do qual
foi coordenadora por 16 anos. Foi docente do Curso de Mestrado de Gestão Integrada em Segurança no Trabalho e Meio Ambiente do Senac
SP. Actualmente é pesquisadora da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho, do Ministério do Trabalho e
Emprego e assessora a diretoria do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde em Saúde Ocupacional no Brasil. Tem experiência
na área de Saúde Coletiva, com ênfase em SAÚDE DO TRABALHADOR, actuando principalmente nos seguintes temas: saúde do trabalhador,
políticas públicas, organização do trabalho e seus impactos na saúde do trabalhador, prevenção de incapacidade e reabilitação profissional,
lesões por esforços repetitivos e acidentes do trabalho.
Na qualidade de médica pesquisadora da
FUNDACENTRO, quais as perspectivas da
FUNDACENTRO sobre as políticas que regem a área de
Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho?
Num contexto de desindustrialização e financiamento da
economia, em que investir em papel rende mais que investir
na produção, paralelamente à diminuição do papel regula-
dor e fiscalizador do Estado, as áreas sociais do poder públi-
co tenderão a sofrer um encolhimento maior ainda. É emble-
mático que a nossa Previdência Social, agora, seja uma área
do Ministério da Fazenda/ Finanças (braço arrecadador do
Estado) e que o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS)
seja uma área do Ministério do Desenvolvimento Social e
Agrário. Cada vez mais estamos regredindo nas conquistas
de direitos universais. O Sistema Único de Saúde (SUS),
concebido como um sistema universal, tem a tendência de
passar a ser destinado para os mais desfavorecidos econo-
micamente, e assim, a possibilidade de melhoria de sua qua-
lidade diminui, pois seus utentes formalmente passam a ser
os que têm menor força de pressão.
A terminar, qual o conselho que gostaria de deixar aos
nossos leitores sobre a Segurança e Saúde no Trabalho?
Difícil falar em conselhos. Mas eu recomendaria a todos que
reflectissem sobre a sociedade que estamos construindo
para nós e para nossos descendentes. Acho que todos
almejam para os seus filhos e netos uma sociedade em que a
desigualdade social e económica não seja uma das questões
centrais, e por isso desencadeadora de desagregação entre
as pessoas, conflitos, violência que atinge todos de uma
maneira endémica. Acho que todos almejam uma sociedade
tolerante, em que os que têm mais recursos sejam solidários
com os que têm menos recursos. Para isso, é preciso mudar
o padrão de felicidade e de bem-estar. É preciso mudar a
desigualdade dentro das empresas e a tecnologia tem que
ser utilizada a favor da maioria e não para uma exploração
crescente da capacidade física e psíquica dos trabalhadores
para a produção incessante de riquezas que se concentram
nas mãos de uma minoria. Segundo a ONG Oxfam, 1% da
população mundial concentra a riqueza dos demais 99%
desde 2015. Segundo o que foi apresentado no Fórum
Económico em Davos pela entidade, há actualmente 62
bilionários que possuem mais património do que metade da
humanidade. Incrivelmente, dois deles são brasileiros. Em
2010 eram 388 bilionários que possuíam a metade do que a
metade mais pobre da humanidade possuía. Portanto, houve
uma estrondosa concentração de riqueza. Isso é inadmissível
como receita de felicidade.
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