Magazine Risco Zero N.º 35

/51 Não são apenas números. São vidas interrompidas, famílias afectadas e impactos económicos e sociais profundos. Mas os acidentes não começam no momento do impacto. Começam antes. Começam em decisões aparentemente pequenas, como adiar uma manutenção, prolongar o uso de pneus desgastados ou ignorar sinais técnicos do veículo. Começam na confiança de que “vai correr bem”. É aqui que nasce a falsa estrada. Não na ausência de estrada, mas na ilusão de segurança. Sempre que alguém entra numa viatura, existe um acto de confiança. Confia-se que os travões respondem, que os pneus têm aderência e que o veículo está em condições. Essa confiança é necessária, mas torna-se perigosa quando ultrapassa a realidade técnica. Os acidentes resultam, muitas vezes, de uma acumulação de factores ao longo do tempo. Pequenas falhas, decisões adiadas e controlo insuficiente criam vulnerabilidades que só se tornam visíveis quando já é tarde. Também as infra-estruturas influenciam o risco. Estradas degradadas, sinalização insuficiente e iluminação deficiente aumentam a probabilidade de acidente. No entanto, mesmo em condições adversas, o estado técnico do veículo continua a ser determinante. No contexto empresarial, o problema ganha outra dimensão. Muitas organizações têm planos de manutenção e processos definidos, mas a falsa estrada surge quando a prática não acompanha o papel. Manutenções adiadas, peças fora de especificação, controlo superficial e falta de formação de condutores são sinais de risco. Não é falta de estrutura. É excesso de confiança. A cultura organizacional é decisiva. Quando a pressão por resultados se sobrepõe à segurança, os riscos aumentam. Quando pequenas falhas são toleradas, tornam-se rotina. Segurança não é um detalhe operacional, é uma decisão de liderança. Num ambiente exigente, surgem justificações frequentes. “Ainda aguenta”, “depois tratamos disso”, “não é grave”. Isoladamente, parecem decisões sem impacto. Mas, acumuladas, criam fragilidade. A falsa estrada não nasce de negligência consciente. Nasce de sucessivas decisões que parecem aceitáveis até deixarem de o ser. Dr. A. Sergio Freitas × Diretor geral da Foples desde 2015 As consequências de um acidente vão muito além dos danos materiais. Envolvem custos operacionais, responsabilidade legal e impactos reputacionais. Mas, acima de tudo, envolvem vidas humanas. Anível nacional, a sinistralidade rodoviária afecta a economia, o sistema de saúde e a estabilidade social. Cada acidente tem um efeito que ultrapassa o momento em que ocorre. Por isso, a segurança rodoviária não pode ser tratada como uma formalidade. Não basta cumprir requisitos mínimos. É necessário garantir manutenção preventiva real, controlo técnico rigoroso, formação contínua e uma gestão consciente do risco. A pergunta essencial não é se o veículo está em dia. É se, perante uma situação crítica, vai responder como esperado. A falsa estrada é silenciosa. Não avisa nem dá segundas oportunidades. Quando se revela, expõe não apenas uma falha, mas um conjunto de decisões acumuladas. E, nesse momento, já não há espaço para corrigir.

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