Magazine Risco Zero nº27
magazine risco zero Dr. Telmo dos Santos ARTIGO TÉCNICO Angola continua a registar uma elevada taxa de mortalidade nas estradas decorrentes de acidentes no trânsito, sendo a maior causa de incapacidades e a segunda maior causa de morte, a seguir a malária. CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS DA SINISTRALIDADE RODOVIÁRIA Apesar dos esforços e implementação de medidas preventivas, todos os dias e em diferentes províncias, morrem inúmeros cidadãos, homens e mulheres, adultos e crianças, ricos e pobres, crentes e ateus, gordos e magros, altos e baixos, executivos e zungueiras, letrados e iletrados, académicos e informais, políticos e activistas, governantes e governados, sem exepção e sem distinção todos vão para a última morada, para o desgosto, dor e luto de familiares e sociedade em geral. E quando assim não acontece, ficam com sequelas para a vida, traduzida muitas vezes em incapacidades permanentes, redução significativa da qualidade de vida, bem-estar e até da expectativa de vida, sem falar dos inúmeros custos com tratamentos, medicamentos, fisioterapias e acções de recuperação ou paliativas. A sociedade perde, o estado perde, as empresas perdem, as famílias perdem e todos perdemos todos os dias mais um(a) que poderia ser alguém e fazer a diferença na sociedade, na vizinhança, na família, na empresa ou no País. Perdemos a pessoa e perdemos também tudo aquilo que poderíamos beneficiar desta pessoa. Um exemplo digno de nota é o Tio António Ferreira. Homem dedicado, pai comprometido, marido amoroso, trabalhador exemplar, político convicto e um homem de bom coração que além dos 6 filhos, ajudava os pais já velhinhos, a sogra viúva, duas irmãs também viúvas por contada guerra e 10 sobrinhos órfãos, alémdos 5 empregados que tinham e que com o salário ajudavam igualmente as suas famílias, que juntos, somavam cerca de 50 pessoas, sem contar com 3 lares da terceira idade que o Tio António ajudava e mais 5 jovens que pagava a escola e ajudava a pagar outras despesas sempre que conseguia. Numa manhã de cacimbo, Tio António despediu a família e foi ao trabalho para mais um dia de labuta, contente, feliz e animado como todos os dias. Depois de receber a missão da semana, partiu para o Huambo em busca de uma mercadoria tão necessária em Luanda. Feliz pelo trabalho, pois adorava viajar, igualmente pela possibilidade de no regresso, trazer os produtos da terra que habitualmente comprava pelo caminho, produtos produzidos no campo, pelas mamãs que confiavam nos filhos a sua comercialização ao longo da via pública. Naquele dia, prometeu a sua esposa levar para casa feijão, batata doce, mandioca, óleo de palma feito de dendém, ginguba acabada de colher e maruvo que a sua sogra tanto amava e saboreava, fazendo-a lembrar o seu saudoso marido. Tio António tinha reservado 50.000,00kz para as compras e este valor, faria toda a diferença em pelo menos 5 famílias, permitindo que as mesmas reinvestissem na terra e garantissem a subsistência alimentar das suas famílias, a escola dos filhos, e até a ajuda aos outros familiares no interior da província, sem contar com o pagamento que beneficiariam os motoqueiros e os rapazes que ajudavam a carregar os produtos até à estrada…a eles e as suas famílias. A lista parecia não ter fim de pessoas indirectas que também beneficiavam do salário e da ajuda do Tio António. Depois de levantar a mercadoria, almoçou na barraca da Dona Joana, tomou o seu café habitual, ainda deixou uma gasosa ao filho que Tia Joana que humildemente atendia-o sempre que lá fosse, engraxou o seu sapato na rua e seguiu o seu caminho. Infelizmente, o Tio António nunca mais chegou a casa e nem sequer foi a tempo de fazer as compras que a família ansiosamente aguardava. Foi brutalmente invadido por um camião na sua fila de trânsito e teve morte imediata. A sua família foi comunicada, tendo ficado em choque pela triste notícia e a tamanha desgraça que os acometera. Infelizmente, a reação não foi diferente para todas as pessoas
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy MjA1NDA=