Magazine Risco Zero nº27
/43 O próprio desenvolvimento contínuo de políticas e normas na área da Saúde Ocupacional está fortemente relacionado com o âmbitodaHigieneOcupacional, nomeadamenteestabelecendo standards e níveis máximos de exposições a múltiplos agentes e riscos no local de trabalho. Esta própria evolução faz-se em paralelo com os contributos científicos de múltiplas áreas e especialidades e com o crescente desenvolvimento da investigação aplicada e verdadeiramente translacional. Naturalmente, a dinâmica do desenvolvimento e da implementação das normas de exposição profissional é complexa, mas é evidente que as atividades de saúde no trabalho exigem uma contribuição significativa de múltiplos profissionais, onde se destacam os profissionais da área da Higiene do Trabalho (1). Nesta atividade, de elevada diferenciação profissional e científica, é necessária uma verdadeira formação multidisciplinar, baseada nas ciências físicas, da vida e, cada vez mais, nas ciências comportamentais. A sua missão - que define o próprio domínio da Higiene do Trabalho - é a antecipação, reconhecimento, avaliação e controlo dos potenciais riscos no ambiente de trabalho (1). Segundo Guillemin, a Higiene Ocupacional nasceu nos anos quarenta, nos EUA, motivada pela necessidade da abordagem das causas das doenças profissionais de um ponto de vista científico e técnico, por forma a compreender como detetar, como avaliar e como controlar os riscos da exposição no local de trabalho (2). Nas décadas subsequentes, esta área desenvolveu-se exponencialmente, graças a um forte empenho de profissionais dedicados e sociedades profissionais apoiadas por organizações internacionais como a OIT e a OMS (2). Citando o Professor Ronald E. Lane, um dos pioneiros da Medicina do Trabalho no Reino Unido e o primeiro professor de Medicina do Trabalho numa Universidade britânica, “A implementação da Higiene Ocupacional (…) foi um desenvolvimento lógico e essencial. Sem as técnicas de medição exatas dos higienistas, o médico na indústria tem um valor muito restrito. É importante perceber, no entanto, que as nossas esferas de ação são complementares; o higienista não pode substituir o médico, assim como o médico não pode trabalhar eficazmente sem o higienista.” (1, 3). O Especialista em Medicina do Trabalho deve recorrer regularmente aos dados e informação gerada pelos especialistas em Higiene Ocupacional, nomeadamente, por forma a conhecer a tipologia das monitorizações a múltiplas exposições em ambientes de trabalho, por forma a conseguir ter uma perspetiva muito mais vasta da hierarquização e tipificação dos riscos dos trabalhadores que se encontram sob o seu seguimento. A interação complementar das duas áreas científicas pode ser pró-activa (avaliações preventivas do local de trabalho para detetar riscos para a saúde e exames médicos preventivos/ rastreio de potenciais indicadores de exposição), ou reativa (p. ex. o especialista em Medicina do Trabalho deteta alteração dos exames médicos ou da avaliação clínica do trabalhador que justificam uma avaliação dedicada pelo Especialista em Higiene Ocupacional para determinar se pode haver um nexo de causalidade com o local de trabalho) (4) . Objetiva-se e preconiza-se precisamente uma grande proximidade do especialista em Medicina do Trabalho aos próprios locais de trabalho; o conhecimento da caracterização específica dos riscos ocupacionais é uma das componentes fundamentais para que se possam abordar eficazmente a prevenção e identificação precoce de patologias relacionadas com o trabalho, decorrentes dessas exposições previamente monitorizadas pelos especialistas em Higiene Ocupacional, de acordo com as normas em vigor e os conhecimentos científicos mais atuais. Prof. Doutor António Jorge Ferreira × Professor Auxiliar de Epidemiologia e Medicina Preventiva da Fa- culdade de Medicina da Universidade de Coimbra. × Especialista em Medicina do Trabalho. Especialista em Pneumo- logia. Assistente hospitalar graduado de Pneumologia do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (Hospitais da Universidade de Coimbra), onde é responsável pela consulta de Doenças Respirató- rias Profissionais desde 2004. × Mestre em Saúde Ocupacional e Doutorado em Medicina Preven- tiva e Comunitária pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde é atualmente coordenador do Curso de Pós-gradua- ção em Medicina do Trabalho e do Mestrado em Saúde Ocupacio- nal.” × Diretor do Gabinete de Estudos Avançados da Faculdade de Medi- cina da Universidade de Coimbra 1 Vincent JH. Occupational hygiene science and its application in occupational health policy, at home and abroad. Occupational medicine. 1999;49(1):27-35. 2 Guillemin P. Occupational hygiene: where from and to? La Medicina del lavoro. 2006;97(2):350-6. 3 Lane RE. My fifty years in industrial medicine. The Journal of the Society of Occupational Medicine. 1978;28(4):115-24. 4 Why are occupational medicine and industrial hygiene complementary professions and what makes them the key members of the occupational health team? Journal of occupational and environmental medicine. 2009;51(1):120-1.
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