Magazine Risco Zero nº26

/37 Num mundo em constante mudança, em que existem conhecidos e emergentes fatores de risco ocupacionais, de natureza muito diversa e heterogénea, só uma formação adequada, moderna, contínua e atualizada, permite a gestão efetiva dos mesmos, quer para os profissionais diretamente envolvidos na área, quer para todos os trabalhadores, nas múltiplas e diversificadas atividades profissionais. A nível mundial, observa-se o crescimento da população, nomeadamente da população trabalhadora, o que exigirá um contínuo e acrescido esforço formativo nesta área, até porque as estimativas da mortalidade mundial associada a doenças profissionais e acidentes de trabalho é muito significativa. De facto, em 2016, globalmente, estimou-se que 1,53 milhões de mortes e 76,1 milhões de DALYs (disability adjusted life- years: um DALY representa a perda do equivalente a um ano de saúde plena) foram atribuíveis a fatores de risco profissional, representando 2,8% das mortes e 3,2% dos DALYs por todas as causas. A maioria das mortes foi atribuível a exposição a partículas em suspensão, gases e fumos, carcinogéneos (particularmente amianto), fatores de risco para acidentes de trabalho e tabagismo passivo no local de trabalho. A maioria dos DALYs era atribuível a acidentes de trabalho e risco ergonómico (1). O desenvolvimento de conhecimentos e treino específico na área da SaúdeOcupacional eAmbiental pode revestir-se de três características que parecem ser bem sucedidas neste âmbito: a aprendizagem interdisciplinar, que permite o intercâmbio de competências e conhecimentos; a aprendizagem experimental, que permite refletir sobre suas experiências individuais, por exemplo, através de visitas ao local de trabalho; a aprendizagem ativa, capacitando o formando a assumir um papel ativo no próprio processo de aprendizagem, utilizando, por exemplo, abordagens baseadas em resolução de problemas ou participação em projetos (2). Segundo Lucchini e colab., a formação na área da Saúde Ocupacional e Ambiental deve ser interdisciplinar e incluir a aprendizagemexperimental comobaseparaodesenvolvimento e implementação de programas de formação. Esta abordagem interdisciplinar colmatará lacunas entre as várias disciplinas e áreas e centralizará o foco de ação na melhoria da saúde e segurança dos trabalhadores e na redução dos riscos no local de trabalho. Segundo estes autores, os programas de formação de índole interdisciplinar proporcionam várias oportunidades paraos formandos apresentarema sua experiência,melhorando assim as suas competências, de forma translacional (2). De igual modo, uma das ações que poderá trazer um aumento do nível de conhecimento nestas áreas é a sua regular inclusão nos curricula formativos das Escolas e Instituições de Ensino Superior (nomeadamente na área da Saúde e Segurança), promovendo a disseminação de conhecimentos e motivando interesse futuro nestas áreas. Por outro lado, a própria formação contínua neste âmbito, não só dos profissionais da área da Saúde Ocupacional, mas de todos dos trabalhadores, pode, através dos conhecimentos adquiridos e competências desenvolvidas, contribuir para o desenvolvimento de ambientes de trabalho seguros e de climas de trabalho promotores da efetiva redução dos riscos profissionais (3). Todas as estratégias concertadas na área da proteção da saúde e segurança dos trabalhadores passam naturalmente pelo mais alto grau de qualificação profissional, que deverá ser adequada não só às características e formação prévia dos formandos, mas também orientada para um segura e interdisciplinar ligação entre sólidos conhecimentos científicos de base teórica e conhecimentos de âmbito prático, aumentando a capacidade de resolução real de problemas em ambientes ocupacionais reais e motivando e promovendo o trabalho em equipa. Prof. Doutor António Jorge Ferreira × Professor Auxiliar de Epidemiologia e Medicina Preventiva da Fa- culdade de Medicina da Universidade de Coimbra. × Especialista em Medicina do Trabalho. Especialista em Pneumo- logia. Assistente hospitalar graduado de Pneumologia do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (Hospitais da Universidade de Coimbra), onde é responsável pela consulta de Doenças Respirató- rias Profissionais desde 2004. × Mestre em Saúde Ocupacional e Doutorado em Medicina Preven- tiva e Comunitária pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde é atualmente coordenador do Curso de Pós-gradua- ção em Medicina do Trabalho e do Mestrado em Saúde Ocupacio- nal.” × Diretor do Gabinete de Estudos Avançados da Faculdade de Medi- cina da Universidade de Coimbra 1 Collaborators GBDORF. Global and regional burden of disease and injury in 2016 arising from occupational exposures: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. Occupational and environmental medicine. 2020;77(3):133-41. 2 Lucchini RG, McDiarmid M, Van der Laan G, Rosen M, Placidi D, Radon K, et al. Education and Training: Key Factors in Global Occupational and Environmental Health. Annals of global health. 2018;84(3):436-41. 3 Hughes J. The critical role of training in protecting workers. New solutions : a journal of environmental and occupational health policy : NS. 2012;22(3):253-4.

RkJQdWJsaXNoZXIy MjA1NDA=